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domingo, 23 de março de 2014

OS EUA DERRUBARAM JANGO: ISSO NÃO É CONSPIRAÇÃO, É HISTÓRIA!


---0---superSuperinteressante aborda golpe de 64 em reportagem especial (Imagem: Divulgação)

A edição de março da revista Superinteressante, da Abril, destaca o conteúdo especial sobre o golpe militar de 64. Na reportagem, assinada por Jennifer Ann Thomas, a publicação aborda da participação dos EUA na implantação da ditadura militar no Brasil.
O texto bastidores conta os bastidores deposição de João Goulart e afirma que os americanos deram o empurrão final na derrubada do governo brasileiro. O trabalho é baseado em em depoimentos de especialistas e nos arquivos recém-abertos pela Lei de Acesso à Informação. A matéria contextualiza a influência militar americana sobre as forças armadas brasileiras nos 20 anos antes do golpe, desde a Segunda Guerra Mundial, quando as tropas dos dois países lutaram juntas.
Os EUA treinaram, financiaram, deram apoio logístico aos golpistas e tinham tropas prontas para intervir caso os planos não seguissem como esperado. Além do texto principal, a revista conta com elementos gráficos, como uma linha do tempo, que permite visualizar os passos que levaram ao golpe.
Os arquivos recém-abertos revelam toda a influência dos americanos no golpe de 64. Eles bancaram os golpistas, tinham tropas prontas para intervir e se seu favorito sucedeu Jango. NÃO É CONSPIRAÇÃO, É HISTÓRIA.
Vamos aos pontos principais da reportagem
John Kennedy tinha um brinquedo novo. Quando os convidados chegaram, o presidente, apertou um botão escondido na lateral de sua mesa, acionando um microfone no Salão Oval e um gravador no porão da Casa Branca. Era a estreia de uma engenhoca secreta que registrou 260 horas de conversas sigilosas. 
Olha que coincidência: a primeira gravação é sobre o Brasil. Das 11h52 às 12h20 de julho de 1962m debateu-se o futuro e a fritura de João Goulart. O embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, disse que jango estava " dando a porcaria do país de graça para os..." "... comunistas", completou Kennedy. O assessor Richard Goodwin ressaltou: "podemos muito bem querer que os militares brasileiros tomem o poder no final do ano". Isso quase dois anos antes do Golpe de 64.
Desde 1961 com a chocante renúncia de Jânio quadros e a conturbada posse de Jango, as reuniões de Kennedy sobre nosso país eram monotemáticas> como impedir que o Brasil se tornasse uma gigantesca Cuba? Apesar disso, Lincoln Gordon, embaixador no Rio entre 61 e 66, morreu em 2009, aos 96 anos, negando que os americanos teriam participado do golpe. Durante e após a ditadura, que foi até 1985, muitos pesquisadores brasileiros menosprezaram o papel dos americanos, tachando investigações nesse sentido de paranoia e teoria da conspiração. Mas documentos revelados nos últimos anos contam uma história diferente, que vai sendo revelada aos poucos.
Parte desse material ganhou destaque com o documentário O Dia que Durou 21 anos, da dupla de filho e pai Camilo e Flávio Tavares - autor de um grande livro sobre a luta contra o regime, Memórias do Esquecimento. O filme apresenta gravações e documentos oficiais e expõe justamente a articulação do governo americano com os militares brasileiros contra Jango. Arquivos recém-abertos nos EUA estão mexendo até com obras definitivas: os quatro livros do jornalista Elio Gaspari serão reeditados levando em conta as gravações clandestinas de Kennedy e seu sucessor Lyndon Johnson. E ainda há muito a ser revelado: Carlos fico, historiador da UFFRJ, estima que mesmo com a Lei de Acesso à Informação ainda não se analisou 20% dos arquivos dos órgãos de repressão brasileiros.
De qualquer forma, as informações disponíveis já permitem cravar: Jango caiu com um empurrão dos EUA. O governo americano instigou os militares, financiou a oposição, boicotou a economia e tinha tropas e navios prontos se fosse necessário intervir. Não foi. 

JANGO LIVRE

O vice-presidente João Goulart soube da renúncia do presidente Jânio Quadros após uma viagem oficial à China, durante uma missão extra-conjugal em Cingapura. Em 2014, após 29 anos de uma democracia ininterrupta, seria uma surpresa se o vice não assumisse, seja quem for e onde estiver. Em 1961, a regra não era tão clara. Aliás, era feita para confundir: havia eleição para presidente e também para vice. Os vencedores poderiam ser de campos opostos. E, em 1960, foram: Jânio era um salvador-da-pátria de direita , Jango um para-raios de todas as tempestades de esquerda. Quando o presidente deixou o campo após sete meses, seu reserva era de outro time. E o árbitro - nesse caso, as Forças Armadas - não quis que o reserva entrasse.
Jango foi defendido em seu Estado natal, o Rio Grande do Sul, onde o governador (e seu cunhado) Leonel Brizola criou a Campanha pela Legalidade para impor sua posse. Com a nação à beira de uma guerra civil, aceitou ser presidente em um regime parlamentarista. Ganhou o cargo, mas não o poder.
Mesmo enfraquecido, ele assustava Kennedy, que o recebeu em abril de 1962. A primeira-dama Maria Thereza Goulart, rival à altura de Jacqueline Kennedy, encantou Washington, mas os EUA mantiveram 2 pés atrás com Jango. Para os americanos ele era um radical livre. Além de manter boas relações com Cuba, defendia impostos pesados e até expropriação de empresas americanas no Brasil. Os relatos de Gordon sugeriam que ele se tratava de uma marionete de Moscou.
Em janeiro de 1963, a 14 meses do golpe, Jango recuperou os poderes presidenciais: 91% da população votou contra o parlamentarismo em um plebiscito. O pleito tinha sido convocado por ele, o que os americanos compararam a "uma jogada de Garrincha, um jogador de futebol que corre riscos esperando obter grandes ganhos". Mas ser contra o parlamentarismo não significava ser a favor de Jango. Sim, ele contava com apoio dos pobres: uma pesquisa do Ibope às vésperas do golpe e não divulgada na época mostrava uma aprovação de 86% entre as classes sociais mais baixas de São Paulo. Mas um levantamento do oposicionista Aníbal Teixeira, no mesmo período mostrava que o golpe era apoiado por 80% do exército, 72% dos empresários 72% dos empresários, 66% do clero e 58% dos estudantes. Na imprensa, tinha fama de indeciso e incompetente. Havia suspeita de que ele planejava realizar seu próprio golpe, com apoio da esquerda.
Jango estava encurralado, e muito por culpa dele mesmo. A história seria diferente se ele tivesse apoio dos americanos? Ou dos militares brasileiros? Se bem que aí é especular demais. O alinhamento desses dois grupos não teve início desse golpe nacional, mas, muito antes, em uma guerra mundial. 

COMANDOS EM AÇÃO

Precisou que um submarino alemão afundasse cinco navios brasileiros em 40 horas para que Getúlio Vargas deixasse de manobras e entrasse de vez na Segunda Guerra contra Hitler. Isso foi em 1942. Só em 1944 os primeiros brasileiros chegaram à Itália para lutar sob comando dos EUA. A Força Expedicionária Brasileira era formada por 25 mil pracinhas. O contingente, metade do previsto, era mal equipado e mal preparado - houve meses de treinamento suplementar em solo italiano. Cientes de que organização não eram nosso forte, os americanos escolheram como oficial de ligação entre os dois exércitos cujo talento principal era o jogo de cintura: Vernon Walters.
Sem diploma universitário, e militar há apenas três anos, Walters era fluente em sete idiomas. Inclusive português, que aprendeu guiando militares lusitanos em visita aos EUA. Conquistou os brasileiros com gestos simples, como o de conseguir casacos para nossos soldados enfrentarem o inverno nos alpes. alem de condecorações, ganhou o posto de adido militar no Rio de Janeiro entre 1945 e 48.
Após o período da Segunda Guerra foi de muito intercâmbio entre oficiais brasileiros e americanos. Após o convívio com forças realmente armadas na Europa, nossos militares pressionavam o governo por mais máquinas, armas e experiência. Centenas foram estudar no exterior, principalmente na Escola das Américas no Panamá, centro de treinamento criado pelos Estados Unidos, e na National War College, inspiração para a criação da nossa Escola Superior de guerra. Independente do endereço, a ideologia era uma só: eliminar o comunismo.
Esse objetivo não era apenas de militares, mas também de civis. Uma tarefa importante dos agentes da CIA era monitorar a America Latina para avaliar a possibilidade de golpes que evitassem "novas Cubas". Sean Purdy,, canadense e professor de história dos Estados Unidos na USP, explica que a agência amaricana não possuía uma formula: podia haver envio de tropas ou apenas apoio logístico e financeiro. E aliados eram imprescindíveis. "Nenhum golpe apoiado peloa americanos aconteceu sem que o país tivesse forças internas para articulá-lo. Ele não era imposto. Os EUA têm sua culpa, mas, também no caso do Brasil, havia parte da sociedade que apoiava a derrubada do governo" explica Purdy. Durante a Guerra Fria, estima-se que a CIA tenha participado de, no mínimo, 26 golpes de estado.
Naquela primeira reunião grampeada por Kennedy ficou decidido que os EUA apoiariam um golpe militar no Brasil. E que o homem para saber quando e como esse golpe aconteceria era: Verno Walters. Quando desembarcou no Rio em outubro de 1962 para reassumir o posto de adido militar, 13 generais brasileiros lhe esperavam para dar as boas-vindas.
Para James Green, historiador da Univesidade Brown, o fato de Walters cai em um ambiante simpático facilitou sua missão de instigar a derrubada de Jango. O conhecimento acumulado facilitava a ida de um conspirador a outro. Em seu livro de memórias Walters desconversa: conta que gostava muito de tomar sorvete com seus amigos, e que não conversava sobre política nesses momentos. "Duvido que isso fosse possível", diz o historiador americano. Apesar de não haver registros, Green acredita que Walters era influente o suficiente para, de forma sutil, deixar claro o nome que mais agradava aos EUA para ser o primeiro presidente após o golpe. A honra coube justamente a um companheiro de Vernon da Segunda Guerra, um general cearense com quem o americano chegou a dividir o quarto: Humberto de Alencar Castello Branco.

A COR DO DINHEIRO

Nem só de tramas ocultas vive uma conspiração. Também é preciso abrir a carteira. Além de financiar adversários de Jango, os EUA os desestabilizaram negando financiamentos ao Brasil.
O apoio aos políticos vinha da Aliança para o Progresso, programa criado no início da gestão Kennedy. Nas eleições estaduais e parlamentares de 1962, era fundamental impedir um crescimento da esquerda brasileira. Rolou uma espécie de mensalão americano: A Aliança distribuiu entre os adversários de Jango US$ 5 milhões - metade do que havia custado a campanha presidencial de Kennedy em 1960. Gordon chamava os contemplados de "ilhas de sanidade". Caso de João Cleofas que perdeu a disputa para Miguel Arraes, e de Carlos Lacerda, que já era governador da Guanabara e assumiu o papel de porta-voz da oposição. O repasse dessa verba marca o início do envolvimento direto dos americanos na política brasileira.
Outra fonte de propaganda ficava por conta do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), dois órgãos brasileiros que contavam com financiamento dos Estados Unidos. Ambos produziam conteúdo para rádio, televisão, cinema e jornais pregando o anticomunismo e a oposição a Goulart, frequentemente misturando as duas coisas. Além das campanhas amplas, o plano americano também contemplava ações focadas em púbico diferenciado e formador de opinião: Os militares brasileiros. Gastram atuais US$ 60 mil em livros para oficiais, e só em 1963 organizaram 1.706 exibições de filmes "progressistas" em quartéis, bases, escolas e navios.
Não bastasse a campanha de desestabilização interna, havia também o boicote externo. Tanto Kennedy quanto Lyndon Johnson, seu sucessor, congelaram os empréstimos que Jango havia acertado com instituições internacionais. Com muito capital investido no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no o Banco Mundial, os EUA podiam decidir quais as propostas poderiam ser aprovadas ou não. Como embaixador, Gordon garantia que Goulart vivia sob influência do comunismo e o dinheiro iria para a guerrilha, o pedido era negado. (Gordon não escondia sua antipatia pelo presidente brasileiro. Em agosto de 1963, pôs um telegrama: "é quase certo  que Goulart fará tudo para instituir alguma forma de regime autoritário". Mai adiante, torce contra sua saúde: "Se Deus é realmente brasileiro, o problema cardíaco de Goulart, de 1962, brevemente será mais agudo".)
Menos de um mês do golpe, os americanos aprovaram o envio de US$ 1 bilhão para o desenvolvimento para o presidente Castello Branco, o que motivou o FMI e o Banco Mundial a enviar recursos. Era como se já estivesse tudo acertado. Bom: alguma coisa já estava.

O QUE TODO MUNDO FAZ

Um mês e meio antes de ser assassinado em Dallas, Kennedy chamou Lincoln Gordon ao Salão Oval e apertou o botão mais uma vez. O áudio desse encontro foi postado no site da Biblioteca Kennedy e descoberto por Elio Gaspari - parte dele estará na nova edição de A Ditadura Envergonhada. Em 7 de outubro de 1963, o presidente americano quis saber do embaixador o que fazer com seu colega brasileiro. Gordon respondeu que havia dois cenários: Jango podia abandonar seu discurso esquerdista e resolver a coisa de modo pacífico. "Ou não tão pacífico: ele pode ser tirado involuntariamente." Gordon buscou instruções: "Vamos suspender relações diplomáticas, econômicas, ajuda, todas essas coisas? Ou vamos encontrar uma maneira de fazer o que todo mundo faz"? Kennedy pega a bola e mais adiante devolve: "Acha aconselhável que façamos uma intervenção militar?" Pense naqueles 26 golpes com selo CIA de qualidade.
Gordon desaconselhou uma ação imediata. A não ser que Jango se aproximasse de "velhos amigos" como Brizola. Ficou por isso mesmo. Kennedy morreu e a bola passou para seu sucessor, Lyndon Johnson.
Atolado com a Guerra do Vietnã, Johnson repassou a bola para Thomas C. Mann, novo coordenador da Aliança para o Progresso. E bota coordenador nisso: em 18 de março de 1964 se reuniu com todas as autoridades envolvidas com a América Latina. Desse encontro saiu a Doutrina Mann: os Estados Unidos reconheceriam o governo de qualquer aliado, mesmo sob regime autoritário, contanto que continuasse anticomunista. A definição a poucos dias do golpe era um sinal claro para os militares golpistas agirem com segurança, escreveu o New York Times no dia seguinte. Mann, em vez de desmentir, declarou: cada caso era um caso.
No caso do Brasil, havia a Operação Brother Sam. Não, não é paranoia: é história, comprovada por múltiplas fontes. Caso os golpistas precisassem de uma força, os Estados Unidos tinham mobilizado um porta-aviões, um porta-helicópteros e quatro navios petroleiros - havia receio que faltasse gasolina para os "revolucionários".  A operação foi planejada com apoio de brasileiros: o general José Pereira de Ulhoa Cintra, homem de confiança de Castello Branco, seria o responsável por avisar Walters caso necessitasse de ajuda.
O estopim do golpe, no entanto não veio de Washington, mas do centro do Rio de Janeiro. É lá que fica o Automóvel Clube, onde em 30 de março Jango em chamas disse a militares aliados que "o golpe que nós desejamos é o golpe das reformas de base, tão necessárias ao nosso país". Para Jango, "as reformas de base" eram uma bandeira; para a oposição, a aurora do Brasil Soviético. Na mesma noite, chegou a Washington um telegrama afirmando que o golpe aconteceria dentro das próximas 48 horas, partindo de São Paulo ou de Minas Gerais. Foi de Minas: o general Olympio Mourão Filho saiu de Juiz de Fora, dando início ao movimento que derrubaria o presidente.
Só no dia seguinte Jango voou do Rio para Brasília, onde foi informado que o movimento de Minas podia ter conhecimento e apoio dos EUA. Para muitos, esse alerta explica a falta de resistência de Jango e sua fuga para o Uruguai: ele não quis enfrentar os americanos. Americanos que nem vieram: em 1º de abril, Castelo Branco avisou Gordon que as embarcações da Operação Brother Sam, que vinham do Caribe, podiam dar meia volta.
O deputado Rainieri Mazzilli assumiu a presidência interinamente. mas quem seria o presidente militar? Costa e Silva, ligado à linha dura, quis impor seu nome. Ficou para 1967. Em 1964, deu Castello Branco - para Green, graças à influência americana. Castello tomou posse em 11 de abril, prometendo "entregar, ao iniciar-se o ano de 1966, ao meu sucessor legitimamente eleito pelo povo em eleições livres, uma nação coesa".
Durante os 21 anos de ditadura, Lincoln Gordon a defendeu. Ignorava a censura, a tortura e celebrava o Milagre Brasileiro. Defendeu até o fim que 1964 o Brasil estava à beira de uma revolução comunista. Nunca se soube por que foi tão fácil para os militares tomar o poder. E talvez nunca se saiba: até hoje não encontraram um gravador no porão do Kremlin.

Fonte: Super Interessante - Reportagem: Jennifer Ann Thomas 

NOTA DA BLOGUEIRA: Para mim há muito mais por trás disso tudo do que essa reportagem diz. Faltou dizer como foram treinados os militares brasileiros para a tortura, como os EUA infiltraram líderes nazistas em todas as ditaduras implantadas na América Latina, como foram trazidos os materiais de tortura onde continham a inscrição "doado pelo povo dos EUA", como foram treinados os serviços de inteligência das empresas que apoiavam a ditadura e ainda mantém esses mesmos métodos até os dias de hoje, enfim, há muita coisa a ser esclarecida. 
Lembro sempre que para tortura não há anistia e que esse crime é imprescritível.
LUGAR DE TORTURADOR VIVO É NA CADEIA E DOS QUE JÁ MORRERAM É UMA CONDENAÇÃO POS MORTEM PARA QUE A FAMÍLIA DELES CONVIVAM COM A VERGONHA DO QUE ELES FIZERAM COM OS PRESOS POLÍTICOS TORTURADOS VIVOS, MORTOS E DESAPARECIDOS.
Achei interessante a reportagem, mas, em algumas partes, bastante tendenciosa, no que se refere ao Jango, mas, em se tratando de uma publicação da Abril, já é alguma coisa.
* Todos os negritos são meus.




terça-feira, 28 de janeiro de 2014

EUA: Feche Guantánamo ! Por Erika Guevara Rosas

Centro de detenção militar da Baía de Guantánamo, em Cuba.
Por Erika Guevara Rosas, diretora para as Américas da Anistia Internacional
Um dos primeiros atos oficiais do presidente Barack Obama, em janeiro de 2009, foi assinar uma ordem executiva para fechar dentro de um ano o centro de detenção militar os EUA na Baía de Guantánamo, Cuba.
Após oito anos de detenções em Guantánamo, isto significava uma promessa de mudança. Mas a ordem não reconhecia as obrigações dos EUA quanto aos direitos humanos. A administração de Obama adotou a discutível “lei de Guerra”, e com isso não terminaram as indefinidas detenções.  
O dia 22 de janeiro de 2014 vai marcar cinco anos desde o decreto do Presidente Obama. Nesse meio tempo, a colônia penal continua a operar em um vácuo de direitos humanos.
As detenções em Guantánamo continuam a ser uma afronta aos princípios internacionais de direitos humanos e minam a credibilidade dos EUA. Enquanto o campo de prisioneiros entra em seu 13º ano, o mundo deve pedir prestação de contas aos EUA por deixar de cumprir os padrões internacionais de direitos humanos que tantas vezes exige dos outros.
Doze anos depois que os primeiros detentos foram levados para Guantánamo, amarrados como carga em um avião, mais de 150 continuam presos lá. Em sua maioria ainda não foram acusados ou julgados.
Entre os que ainda estão detidos em Guantánamo estão pessoas que deveriam ser julgadas por ligações com os ataques de 11 de setembro de 2001 ou outras violações graves dos direitos humanos. Respeitar o direito à Justiça das vítimas significa ter, há muitos anos, acusado e julgado essas pessoas em tribunais civis comuns.
Apesar de a Suprema Corte dos EUA ter decidido, há cinco anos e meio, que os presos de Guantánamo tinham o direito constitucional a uma audiência ‘sem demora’ para contestar a legalidade de suas detenções, alguns presos ainda não obtiveram habeas corpus
Na distorcida lógica jurídica de Guantánamo, até mesmo uma decisão judicial de que a detenção de uma pessoa é ilegal pode não significar sua libertação imediata. A transferência no último mês de três homens chineses de etnia uigur para a Eslováquia aconteceu mais de cinco anos depois de um juiz federal dos EUA ter deliberado que a sua detenção era ilegal. Se os EUA fizessem o que pedem aos outros países, trazer para os EUA presos libertados que não podem ser repatriados, os uigures poderiam ter sido soltos logo após a decisão judicial de seu caso.
Mais de 70 outros, a maioria iemenitas, receberam “aprovação para transferência”, mas, aos olhos dos EUA, a situação de segurança em seus países de origem e outras questões, adiaram a sua libertação. 
Alguns detentos aguardam julgamento sob um sistema de Comissão militar que não cumpre as normas internacionais de julgamento justo.
Seis deles correm risco no momento de ser condenados à morte. Dos quase 800 presos que ficaram detidos lá, apenas sete, menos de 1%, foram condenados por uma comissão militar. Cinco dos quais se declararam culpados no âmbito de acordos de pré-julgamento que prometiam uma possível saída da base.
Enquanto isso, a falta de uma prestação de contas, da verdade e de uma reparação pelas violações de direitos humanos cometidos contra os prisioneiros de Guantánamo, atuais e passadas, é uma dolorosa injustiça que deixa os EUA em violação grave das suas obrigações internacionais de direitos humanos.
Prisioneiros de Guantánamo foram torturados e submetidos a maus-tratos - seja em Guantánamo ou em outro lugar sob custódia dos EUA antes de chegar lá, inclusive "afogamento simulado ", mantidos em isolamento prolongado, e, mais recentemente, submetidos a procedimentos cruéis de alimentação forçada em represália a uma greve de fome em massa em protesto contra a sua detenção.
Nove detentos morreram sob custódia na base - dois de causas naturais e sete suicídios.
Se qualquer outro país fosse responsável por esse vácuo de direitos humanos, certamente atrairia a condenação dos EUA. Mas os EUA permitiram que continuassem as detenções em Guantánamo e a lacuna de responsabilização até mesmo enquanto alardeavam o seu compromisso com os direitos humanos.
Essa duplicidade não passou despercebida. Outros governos, especialistas da ONU e organizações não governamentais estão entre os que pediram o fim das detenções em Guantánamo.
Até mesmo o primeiro comandante das detenções na base, o agora aposentado Major General Michael Lehnert, disse recentemente que o centro de detenção de Guantánamo "não deveria ter sido criado". Em sua opinião, a detenção e as torturas lá tinham "dilapidado a boa vontade do mundo" depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 nos EUA.
Fechar Guantánamo deve significar acabar com as violações que vieram a representar – simplesmente realocar é inaceitável. O mundo deve pressionar os EUA para acabar com sua errônea perspectiva jurídica de "guerra global".
O Congresso e a administração de Obama devem empenhar-se em uma estratégia de luta contra o terrorismo totalmente em conformidade com a legislação e as normas internacionais.
Não se pode colocar uma pedra em cima da questão de Guantánamo sem a plena responsabilização pelas violações de direitos humanos, incluindo crimes sob as leis internacionais, que foram cometidos na base e em outras partes nesta "guerra global ao terror" dos EUA.
Fechar o centro de detenção não vai gerar responsabilidade da noite para o dia. Mas isso continua a ser um importante - e necessário - passo na direção certa.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O governo invisível não quer Dilma


A expressão ‘siga o dinheiro’, comum em filmes policiais, ilustra a percepção correta, adiantada por Adam Smith, de que a moeda desenha estradas invisíveis na sociedade.

Rastreando-as  é possível desvendar aquilo que não se oferece imediatamente  à vista.

Pelos caminhos do dinheiro circulam  desde carregamentos lícitos, como safras, a armamentos, sonegações fiscais, drogas, favores políticos e outras miunças.

Os bancos são o entreposto de serviços desse trânsito.

Ademais de concederem  abrigo seguro e rentável ao fluxo  –eventualmente lavá-lo das marcas do caminho-- tem o poder de gerar e direcionar novos volumes de tráfego, em emissões de crédito desdobradas da carga ociosa em seus depósitos.

Esse notável replicador  conecta-se a outros entroncamentos por onde o dinheiro graúdo viaja em primeiro  classe, engordando sua existência (às vezes  acometida de emagrecimentos súbitos causados pela gula tóxica).

O conjunto forma o que se chama de sistema financeiro.

Pelo calibre dos interesses que reúne,  a abrangência da ramificação e o poder de influencia que exerce , constitui  uma espécie de governo invisível da sociedade.

 O governo invisível  não quer a reeleição de Dilma.

Pesquisa feita com duas dezenas de expressivos dirigentes dessa constelação, ao abrigo do anonimato, como manda  o ofício, constata que o ‘Setor financeiro quer mudança no Planalto’, informa o jornal Valor Econômico desta 3ª feira.

As relações entre o governo invisível e o visível (qualquer que seja ele) desenvolvem-se em um amplo gradiente.

Oscilam da extrema  cordialidade a  variados graus  de inevitáveis fricções, em se tratando de duas  ordens  distintas se representação do mosaico social.

O governo invisível acha que o governo Dilma atrapalha o seu sistema viário - ainda que longe de comprometer o valor corrigido e real da frota, como atestam as taxas de juros do país, entre as três mais altas do mundo.

Prefere-se, indica o Valor,  que o Estado seja gerido por centuriões de integral confiança, a exemplo daqueles que assessoram Aécio Neves, como o ex-presidente do BC tucano, Armínio Fraga;  ou o economista Gianetti Fonseca, ligado a Marina Silva e Campos.

Em síntese, gente que aplique como se deve a regra do tripé, a saber:

inflação na meta (leia-se, juros altos); câmbio livre (leia-se, nenhum controle sobre o fluxo volátil de capitais) e equilíbrio fiscal (leia-se, arrocho para garantir os juros dos rentistas).

A esse conjunto, o naipe liberal  credita a chave da ‘estabilidade econômica’.

A quebra especulativa do sistema financeiro mundial sugere  que o sagrado tridente com o qual o governo invisível pretende tanger o visível não entrega  necessariamente o que promete.

O problema da instabilidade do capitalismo mostrou-se mais uma vez  inerente ao próprio sucesso do sistema que encoraja ditos agentes racionais e alçarem voos cada vez mais cego, altos e inseguros.

A ausência de regulação disciplinadora levou-os na crise recente de volta às correntezas de vento  exploradas originalmente pelo charlatão italiano Charles Ponzi.

Imigrante pobre nos EUA dos anos 20, Ponzi descobriu que podia fazer uma espécie de arbitragem com a diferença de preços dos selos, mais caros  nos EUA que na Europa.

Nasceria assim o bisavô do atual carry trade ( aplicação financeira que consiste em tomar dinheiro a uma taxa de juros em um país e aplicá-lo em outro, de taxas maiores).

Ponzi captava dinheiro nos EUA para comprar selos na Europa e revendê-los no mercado americano.

A diferença era embolsada pelo investidor com a promessa de rendimentos  trimestrais que oscilavam de 50% a até 100%.

O negócio floresceu rapidamente  gerando  filas na porta de Ponzi, que contratou dezenas de agentes captadores movidos  promessas de bônus milionários.

A roda da bicicleta  passou a girar  como se imagina.

De uma captação inicial da ordem de US$ 6 mil, em fevereiro de 1920, saltaria para a faixa dos  US$ 400 mil em maio.

Dois meses depois transitava na casa dos seis zeros.

Ponzi descobriu que ganharia mais sem desperdiçar recursos com os selos.

Abaixo os intermediários: pagava a fila de ontem  com os recursos captados hoje.

No final de 1920, o negócio foi desmascarado, levou milhares à ruína e Ponzi à cadeia, como charlatão financeiro. 

Poucos se deram conta de que estava ali  também um filho típico daqueles tempos de sucesso inebriante dos mercados financeiros sem lei.

O sentido ficou mais claro nove anos mais tarde quando a Bolsa de Nova Iorque quebrou deflagrando uma crise mundial da qual o capitalismo só se livrou com a  Segunda Guerra.

A memória seletiva dos rapazes do mercado e dos vulgarizadores da superior  eficiência dos livres mercados  ajuda a entender como depois  quase um século, a bicicleta girou em falso novamente, dando um tombo global no mercado em 2007/2008.

Sucessores avulsos de Ponzi ,como Bernard Maddoff, estavam presentes.  Mas, sobretudo, uma miríade institucional.

O que são, afinal,  os derivativos a não ser  fundos indexados a outros fundos, cujo lastro efetivo repousa sobre material de qualidade tão sofrível quanto os selos- fantasia de Ponzi? Ou o recheio das sub-primes  do boom imobiliário norte-americano?

A banca brasileira –e seus porta-interesses na mídia e na política-- considera que a intervenção disciplinadora do Estado nos mercados  compromete a eficiência e corrói a estabilidade do sistema.

Prefere Dilma fora e a lubrificação do país por gente do ramo.

A Depressão norte-americana de 1929 esfarelou a indústria e despejou metade da mão de obra na rua.

Seis anos após o colapso de 2008 da ordem neoliberal, a OIT informa que existe um estoque de  202 milhões de desempregados no mundo  (62 milhões adicionados pela crise); 839 milhões de trabalhadores vivem com menos de US$ 2/dia e 48% do emprego atual é precário.

Vai piorar: espera-se um acréscimo  de mais 13 milhões de demitidos à legião disponível até 2018.
 
O Brasil  criou cerca de 14 milhões de empregos desde o início da crise mundial  (sendo 1,1 milhão no ano passado, saldo carimbado como um fracasso pelo jornalismo isento).

 Os bancos preferem o modelo de  estabilidade espanhol: 26% de taxa de desemprego.

Jornais, a exemplo da Folha, já cogitaram seriamente Ruanda (45% de taxa de pobreza) como referência de país ‘top reformer’ –um  dos mais receptivos  a mudanças amigáveis ao ambiente dos negócios. 

A saúde dos mercados e a deriva da sociedade, como se vê,  não soam contraditórias  a certa concepção de estabilidade.

Antes, exprimem uma  tendência mais geral de um capitalismo que deixado à própria sorte, mais que nunca vai operar em condições de baixa demanda efetiva, elevado desemprego e especulação solta na esfera financeira.

Ademais dos candidatos sabidos, a disputa de outubro coloca em confronto essas duas concepções de governo: a visível e a invisível.


por Saul Leblon

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?%2FEditorial%2FO-governo-invisivel-nao-quer-Dilma%2F30062

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

STEPHEN KING: TENHO VERGONHA DE SER NORTE-AMERICANO


Stephen King escreveu cerca de 50 romances e vendeu mais de 300 milhões de exemplares. O autor de Carrie, a estranha (1973) e O Iluminado (1979) -- o livro que Stanley Kubrick e Jack Nicholson converteram num filme memorável -- é certamente o escritor vivo mais popular do mundo. Símbolo e metáfora da cultura pop norte-americana e encarnação democrata do sonho americano, King é, entretanto, um cara absolutamente humilde, um histriônico terno e simpático que tende a minimizar seu talento de escritor e que tira sarro de si mesmo sem parar, num exercício que às vezes parece saudável e outras parece beirar o masoquismo.
Acaba de passar por Paris pela terceira vez na vida para promover seu último romance, Doctor Sleep (previsto para sair no Brasil pela editora Suma de Letras), que é uma espécie de continuação ou pedaço separado de O Iluminado. Hospedado no luxuoso Hotel Bristol, ele passeou pela cidade, deu uma entrevista coletiva massiva, fez milhares de leitores rirem no imenso teatro Rex, onde acabava de tocar Bob Dylan, e não parou de autografar livros e de fazer amigos contando anedotas e rindo de sua própria sombra. O autor de Angústia (Misery,1987) contou que levava 35 anos se perguntando o que teria acontecido com o protagonista de Doctor Sleep, nada menos que Danny Torrance, o menino que lia os pensamentos alheios e que sobrevivia a duras penas aos ataques violentos de seu pai alcoólatra e abusador, Jack Torrence, naquele hotel triste, solitário e fim de linha onde transcorria O Iluminado.
Danny tem agora quase 40 anos, bebe como o pai, frequenta as sessões dos Alcoólicos Anônimos e cuida de anciãos que estão à beira da morte. Daí o título do romance que é um compêndio do potente universo de King: há vampiros que comem crianças para se alimentar, gente com poderes paranormais, tiroteios, rituais satânicos e sessões de telepatia intensiva. Não se passa um medo mortal como em O Iluminado, mas é um romance de ação muito legível.
Num excelente artigo publicado em The New Yorker, Jushua Rothman explicou que King é o principal canal por onde fluem todos os subgêneros da metade do século XX: ficção científica, terror, fantasia, ficção histórica, livros de super-heróis, fábulas pós-apocalípticas, faroeste, que logo ele transfere a seu pequeno reduto de Maine, o remoto Estado do nordeste dos EUA onde vive, povoado por 1,2 milhão de pessoas.
A prova da sua influência na cultura norte-americana são o cinema e a televisão, que continuam disputando suas histórias. Embora aos 65 anos continue insistindo em que o que escreve não vale grande coisa, quatro décadas de ofício e uma legião de leitores no mundo todo acabaram convencendo uma parte da crítica e alguns companheiros de profissão de que a sua literatura, pensada para entreter a América rural pobre, tem mais interesse, sentido e qualidade do que ele mesmo crê.
Em 2003, King ganhou a Medalha da Fundação Nacional do Livro por sua contribuição às letras americanas, um ano depois de Philip Roth tê-la ganho. Naquele dia, o escritor Walter Mosley destacou "seu entendimento quase instintivo dos medos que formam a psique da classe trabalhadora norte-americana". E acrescentou: "Ele conhece o medo, e não só o medo das forças diabólicas, como o medo da solidão e da pobreza, da fome e do desconhecido.
Mas, acima de tudo, King é uma grande figura. Filho de mãe solteira e pobre, mede quase dois metros, é desajeitado e muito magro, tem uma cara enorme, fala pelos cotovelos, não para de dizer palavrões, tomou toneladas de "cerveja, cocaína e xarope para a tosse", toca guitarra numa banca de rock de amigos, tem uma mulher católica "cheia de irmãos", três filhos, quatro netos, uma conta cheia de zeros, pediu ao governo que lhe cobre mais impostos do que os que paga, adora Obama, odeia o Tea Party, faz campanha contra as armas de fogo e, como entrevistado, é uma mina de ouro: raras vezes se esquece de dar alguma manchete como resposta.
Então o senhor não gosta de vir para a Europa?
Vim uma vez a Paris com minha mulher em 1991, e outra a Veneza e a Viena, em 1998, com o meu filho; dessa vez passamos uma noite em Paris, mas fomos ver um filme de David Cronenberg. Na Europa, passo vergonha: não falo outra língua que não seja inglês, e não gosto de ir dando uma de celebridade. Prefiro a discrição. Eu vivo em Maine, uma cidade pequena onde sou só um a mais. Quando venho a Paris sou a novidade, ninguém nunca me viu, lá eles me veem desde sempre, não ligam, sou o vizinho.
E por que tende a se subvalorizar?
O contrário disso seria me chamar O Grande, que seria a mesma coisa que me chamar de O Grande Babaca. Não quero ser isso. Quero ser tratado como uma pessoa normal. Os escritores temos que olhar a sociedade, não o contrário. Se os meus editores me dizem para vir a Paris é porque querem vender livros. Nas feiras dos EUA trabalham moças como chamariz: se colocam nas portas dos locais de strip-tease e mexem um pouco a bunda para atrair os clientes. Aqui sou eu que mexo a bunda. Em casa, estou no meu lugar, na cadeira certa, escrevendo. É lá onde devo estar.
O que sente ao ter vendido 300 milhões de livros?
O importante é saber que o jantar está pago, o número de cópias que você vende dá na mesma, desde que sejam suficientes para continuar escrevendo. Adoro esse trabalho.
Não sente orgulho?
Não sei se é orgulho, mas me faz feliz saber que o meu trabalho conecta com as pessoas. Cresci para contar histórias e entreter. Nesse sentido, acho que fui um sucesso. Mas no dia a dia é minha mulher dizendo: "Steve, desça o lixo e ligue a máquina de lavar louça".
Sente-se maltratado pela crítica?
No começo da minha carreira vendia tantos livros que os críticos diziam: "Se isso agrada a tanta gente, não pode ser bom". Mas comecei jovem e consegui sobreviver a quase todos eles. Muitos críticos sabem que levo anos tentando demonstrar que sou um escritor popular, mas sério. Às vezes é verdade que o que vende muito é muito ruim, por exemplo, 50 tons de cinza é um lixo, pornografia para mamães. Mas A sombra do vento, de Ruiz Zafón, é bom, e Umberto Eco foi muito popular e é estupendo. A popularidade nem sempre significa que uma coisa é ruim. Quando leio uma crítica muito negativa, fico quieto para que o crítico não saiba que estou choramingando. Mas eu sempre as leio porque quero aprender, e quando uma crítica está bem feita, te ajuda a saber o que você fez mal. Se todos dizem que uma coisa não funciona, você pode acreditar neles. Em todo caso, a melhor réplica a uma crítica foi feita por um músico do século XIX cuja ópera foi demolida por eles. Ele escreveu uma carta ao crítico dizendo: "Estou no menor cômodo da minha casa. Tenho a sua crítica na frente e muito em breve a terei por trás."
Quando decidiu ser escritor?
Sabia o que faria aos doze anos. Escrever nunca foi um trabalho. Levo 54 anos fazendo isso e ainda não posso acreditar que continuem me pagando. De fato, não posso acreditar que nos paguem a nós dois por estar fazendo isso!
Eu tampouco. É verdade que teve uma infância um pouco "Oliver Twist"?
Nem tanto. Meu pai foi embora de casa quando eu tinha dois anos e a minha mãe trabalhou muito duro para criar a mim e ao meu irmão. O que mais lamento é que ela tenha morrido de câncer antes de eu fazer sucesso. Eu teria gostado de tratá-la como uma rainha! Meu primeiro romance, Carrie, a estranha foi publicado em abril de 1974 e ela morreu em fevereiro. Ao menos recebi o adiantamento e isso serviu para cuidar bem dela. Ela chegou a lê-lo e lhe agradou, disse que era maravilhoso e que teria faria muito sucesso.
Herdou dela a imaginação?
Não, o senso de humor. A fantasia e a escrita, herdei do meu pai. Ele costumava mandar relatos às revistas ilustradas nos anos trinta e quarenta, embora nunca os tenham publicado. Adorava a fantasia, a ficção científica, as histórias de terror. De pequeno, encontrei em casa uma caixa cheia de livros de Lovecraft, de Clark Ashton Smith; foi como uma mensagem sua cheia de coisas boas.
Como é a sua relação com o dinheiro?
Nunca aprendi a ser rico, não dão aulas disso e não cresci com dinheiro. Quando pequeno costumava pedir 25 centavos para ir ao cinema ou trabalhar colhendo batatas. Nunca pensei que teria muito dinheiro. Minha mãe passou seus últimos dez anos cuidando dos seus pais e em casa nunca houve liquidez. Nesses casos, se, de repente, você põe a mão numa fortuna, pode se tornar vulgar e comprar um enorme Cadillac, paletós de três peças feitos sob medida e sapatos caros. Mas eu cresci numa comunidade ianque onde a ostentação não é bem vista. Depois me casei com uma mulher muito apegada à terra que teria rido muito se eu tivesse voltado para casa com um casaco de pelo de camelo. Ela teria dito: "Quem você acha que é? Mohamed Ali?". Apesar de que eu me venderia como uma puta por sapatos ou por carros, só tenho um carro elétrico. Vivemos modestamente e damos dinheiro às livrarias das cidades pequenas, à Unicef, à Cruz Vermelha. Seguimos o lema de J.P.Morgan: o homem que morre milionário morre fracassado. O dinheiro serve para pagar as contas, fazer teu trabalho, ajudar à minha família e ao meu sogro.
Ou seja, você é um self-made man com consciência social,que pede para pagar mais impostos do que os que já paga.
Todo mundo deveria pagar impostos de acordo com sua renda. Eu gosto de pagá-los só para boas causas, e não para custear guerras no Iraque, que foi a mais estúpida do mundo. Nesse sentido, encarno o sonho americano, embora sem Cadillac.
Também faz campanhas contra a venda livre de armas. Uma causa perdida?
O problema não são as espingardas de caça. 70% dos EUA é rural, e não vejo problema em que as pessoas cacem cervos e os comam. Ter revólveres em casa também não me parece ruim, eu mesmo tenho um, descarregado e longe do alcance das crianças. O grande problema, o que me deixa fora de mim, são as armas semiautomáticas. Dão 40, 60 ou 80 tiros seguidos, como a que se usou na matança de Connecticut. É vergonhoso que se vendam, mas o lobby da Associação Nacional do Rifle trabalha para os fabricantes de armas e se baseia na fantasia de que os EUA são como há 50 ou 60 anos. Dizem que as mortes de crianças são o preço a se pagar pela segurança. A cultura pistoleira forma parte da cultura americana, mas odeio isso, me dá nojo. Depois perguntam por que nunca venho à França ou à Alemanha: porque são civilizados e eu sinto vergonha de ser norte-americano. Amo o meu país, mas ele está cheio de lixo.
Quem ganhará a guerra entre Obama e o Tea Party?
Os do Tea Party são uns idiotas e uns racistas que atacam Obama basicamente porque tem a pele escura. Quando Bush arruinou o mundo inteiro em 2008 com suas ideias ultraliberais, não disseram nada. Agora esse alienígena cresceu dentro do Partido Republicano e não vai parar até destruí-lo, o que não me parece ruim. Sua única ideia é paralisar o governo, sem se dar conta de que a situação econômica está muito melhor do que com Bush. São como uma obstrução intestinal. Espero que em 2014 os americanos decidam dar esses 30 assentos a 30 democratas. Tudo melhorará. Em todo caso, se estão incomodados com Obama, pior vão ficar em alguns anos: o próximo presidente usará saias.
Falemos de Danny Torrance, o menino de O Iluminado, que agora volta com Doctor Sleep.
No fim de O Iluminado, em 1977, Danny tinha quatro ou cinco anos, porque escrevi o romance em 1976, durante o bicentenário, quando Ford era presidente. No início do Doctor Sleep ele tem oito anos. Durante 33 anos, esse menino esteve na minha cabeça. Eu me perguntava o que teria acontecido com ele, se continuaria ou não mantendo esse talento, a iluminação de ler os pensamentos das pessoas. Cresceu numa família terrível. Sua mãe, muito ferida, sobreviveu por milagre à surra da mesa da sala de jantar, e o pai, Jack, era alcoólico, como eu... Sabia que Danny devia continuar com raiva do mundo, porque seu pai era um canalha que abusava deles. A raiva é o centro do livro, entre Jack e Danny há uma geração marcada pela raiva.
O senhor bebia muito na época?
Quando escrevi o livro, muitíssimo. Sabe como é, os escritores temos que falar daquilo que conhecemos.
O que bebia?
Bebia muita cerveja. Isso não é tão forte... Mas é que eu tomava uma caixa por dia, 24 ou 25 latas...
Com outras substâncias?
Não nesse momento. Depois sim, tomei tudo o que se possa imaginar. Cocaína, Valium, Xanax, água sanitária, xarope para tosse... Digamos que eu era um multitoxicômano. O ruim é que na época não havia programas de ajuda, e fiz de Jack um alcoólico pior do que eu. Ele tentava curar a dependência da maneira mais dura e era pior. Agora tentei equilibrar isso em Doctor Sleep pensando no que teria acontecido se Jack tivesse tido ajuda. Então meti Danny nos Alcoólicos Anônimos.
Aquele romance fez com que o rotulassem como um narrador de histórias de terror. Isso o incomodou?
As pessoas, sobretudo os críticos e os editores, adoram os rótulos, gostam de meter os autores em jaulas, colocá-los numa pasta. Para os editores é como vender comida: esse escritor lhes dará vagem; esse, terror; esse, chocolate. Não acho isso ruim. Quando Carrie, a estranhafoi publicado, já tinha outros dois romances escritos, e perguntei ao editor em Nova York qual preferia, um mais literário, de um sequestro, ou outro de terror, Salem. E ele me disse: "O segundo será um best seller, mas se lançamos o de terror, vão te rotular". E eu lhe disse: "Se pagar a conta do supermercado, eu estou pouco me lixando. A minha mulher me chama de querido; meus filhos de pai; meus netos de vovozinho, e eu me chamo Steve. Pouco me importa como me chamem os demais".
Pensou em que lugar da literatura norte-americana ficará Stephen King?
É difícil de saber. Não sei se há vida depois, embora não creia nisso. Mas se ficasse algo semelhante à consciência, a última coisa com que eu me preocuparia seria em saber se a próxima geração me lê ou não. Dito isso, quando os escritores morrem, ou seus livros continuam sendo publicados ou desaparecem. A maioria desaparece. Ficam só alguns e esses são os importantes: Faulkner, Hemingway, Scott Fitzgerald, esquecido quando morreu e resgatado mais tarde.
Em espanhol, Cervantes, García Márquez, Roberto Bolaño, esses ficarão. Bolaño sabia tomar drogas e beber. Mas também acontece de ficarem as pessoas mais estranhas: de Stanley Gardner, o autor de Perry Mason, ficou muito pouco; mas não ficou nada de John D. McDonald, que era estupendo. E simplesmente nada de John M.Cain, mas sim de Jim Thompson. E, mais estranho ainda, permanece Agatha Christie... Ou seja, a gente nunca sabe quem vai perdurar. Acho que os escritores de fantasia têm mais chance de permanecer. E acho que, dos meus livros, resistirão Salem (Salems' lot), O IluminadoA Coisa e talvezA dança da morte . Mas não Carrie, a estranha. E talvez tambémAngústia. Esses são os imprescindíveis para quem os leu, mas não tenho nenhuma certeza de que as pessoas continuem pensando no meu trabalho quando eu morrer. Quem sabe. Somerset Maugham foi muito popular no seu tempo. Agora ninguém o lê. Escreveu grandes romances. Alguém lhe perguntou por seu legado e disse: "Estarei na primeira fila do segundo time". Dirão isso de mim.
Viu como prefere militar na segunda divisão?
Quando você está dentro do negócio, sabe bem qual é o teu nível de talento. Quando você lê um escritor bom, pensa: "Se eu pudesse escrever assim", você nota muito a diferença entre o que você faz e o que escreve gente como Philip Roth, Cormac McCarthy, Jonathan Franzen ou Anne Tyler. Há muitos muito bons.
O senhor continua lendo muito?
Tanto quanto posso, diariamente, embora assista muita televisão. E escrevo todos os dias, acabo de escrever uma coisa sobre Kennedy para The New York Times. Esse ofício é uma paixão. Mais que viver dele, gosto de praticá-lo. Preferiria estar escrevendo agora em vez de estar aqui.
Já acabamos.
Não, você é um cara ótimo, é que as ideias me vêm sem querer. Esta manhã estávamos no carro, paramos ao lado de um ônibus onde havia uma mulher sentada e eu pensei: "E se agora subisse um cara e lhe cortasse o pescoço? Será um conto curto, embora isso nunca se saiba;Carrie, a estranha ia ser um relato também e acabou virando um romance. O importante é essa pergunta: "o que aconteceria se...? Esse é o melhor motor das minhas histórias.
E depois acabam no cinema ou na televisão.
Sim, muita gente vai ao cinema no mundo e isso ajuda a te fazer popular. Mas no fim dá tudo na mesma, porque um dia você se encontra com gente pela rua que te reconhece e te diz: "Você é Stephen King? Cara, eu adoro os teus filmes". Outro dia, num supermercado da Flórida, uma mulher me parou e brigou comigo porque escrevo coisas aterrorizantes. Ela disse: "Prefiro The Shawshank Redemption (conto que inspirou o filme Um sonho de liberdade). E eu: "Fui eu que escrevi ". E ela: "Não é verdade, de jeito nenhum". E se foi.
O livro eletrônico lhe ajudou a vender maisO que acha da Amazon?
Amazon e o livro eletrônico são fantásticos para os escritores. Se antes um editor dizia não, era não. Agora, você pode editar seu livro e vendê-lo. Para os que estamos nisso há tempos, é um mercado a mais. Antes havia capa dura, capa mole e áudio. Agora há também livros digitais, que são maravilhosos. Tudo isso é formidável para os fornecedores do material, que somos nós: sempre vão continuar precisando de histórias. É um problema para os editores, que sempre foram os guardiões da qualidade, mas muitos descobrem novos talentos na rede. E para os leitores é ambivalente: sem livrarias, 90% do que inunda a Amazon é lixo. Como 50 tons de cinza. É inacreditável vender isso como ficção!